Atualmente, não existe uma lei federal no Brasil que garanta afastamento para funcionários que perderam um pet. No entanto, algumas empresas oferecem dias de folga no formato de benefício.
É o caso da Meu Pet Club, startup curitibana especializada em benefícios e serviços para animais de estimação. A empresa vende planos corporativos que incluem desde telemedicina veterinária até suporte no falecimento de um pet.
"Hoje os tutores consideram seus pets como filhos, e isso impacta diretamente a produtividade. Se algo acontece com o animal, a pessoa não consegue focar no trabalho." — Octavio Pavelqueires, COO do Meu Pet Club
Segundo o COO da startup, o benefício do luto pet foi pensado para atender a necessidade emocional e prática dos tutores. O suporte oferecido inclui a remoção do pet falecido, traslado para cremação ou sepultamento e acompanhamento psicológico.
Além disso, a própria empresa estendeu o benefício aos funcionários: cinco dias de licença tanto para o luto quanto para a adaptação de um novo pet, período chamado de “peternidade”.
Na Royal Canin, empresa de nutrição animal, o benefício de luto pet é oferecido desde 2022. O auxílio garante um dia de afastamento ao colaborador que perdeu o animal de estimação. A diretora de recursos humanos da companhia, Juliana Gonçalves, avalia que a iniciativa reflete o compromisso da organização.
“Esse tempo permite que o funcionário processe o luto e tome as providências necessárias de maneira mais tranquila”, afirma.
A Royal já possuía outras iniciativas voltadas ao cuidado com os pets dos colaboradores, como descontos na compra de produtos, licença para adoção e a política pet friendly nos escritórios.
Apesar da adesão ao benefício não ser alta, o retorno dos colaboradores que utilizaram tem sido positivo, reforça a diretora de RH. “Um dos feedbacks mais marcantes foi o de um funcionário que disse ter tido um momento para ter uma despedida adequada.”
Luto pet pode impactar desempenho no trabalho
No Brasil, a maioria das empresas que adotam medidas inclusivas para funcionários que perderam animal de estimação pertence ao setor pet, pondera Simone Nascimento, especialista em saúde mental nas organizações.
“Dentro do universo pet, as companhias já nascem com o pacote de benefícios voltado para animais”, diz, acrescentando que empresas tradicionais e de grande porte ainda não avançaram na pauta.
Por outro lado, segundo a especialista, a tendência é de que startups brasileiras, principalmente fundadas por pessoas da geração Z, adotem mais práticas inclusivas no ambiente de trabalho.
No dia a dia, ela ressalta que a partida de um pet pode ter um impacto emocional tão intenso quanto a perda de um ente querido.
"Algumas pessoas têm um vínculo emocional profundo com seus pets e passam por todas as fases do luto, mas precisam viver esse processo em silêncio, porque seu sofrimento não é considerado verdadeiro ou digno de cuidado e atenção." — Simone Nascimento, especialista em saúde mental nas organizações
Como resultado, o colaborador enlutado pode aumentar os níveis de estresse, fadiga, cansaço e ter uma dificuldade maior em se concentrar.
“Não dá para separar mente e corpo. Se o emocional não está bem, o físico também sente. Não deixamos nossas dores, alegrias, expectativas e ansiedades do lado de fora da empresa, tudo isso nos acompanha”, aponta.
No caso da bibliotecária Maria do Socorro, tutora da Malu, ela só percebeu a queda no desempenho quando sua gestora direta a questionou se algo estava errado.
“Estava passando por uma tristeza profunda, não conseguia dar conta do trabalho.” Foi a própria chefe quem a aconselhou a buscar ajuda médica, período em que começou a fazer terapia para lidar com a perda do animal.
Feedback de funcionários motivou adoção de benefícios
Foi a partir de pesquisas internas e grupos de discussão com os funcionários, que a MSD, empresa global farmacêutica, fez uma revisão dos benefícios oferecidos aos colaboradores. O levantamento apontou que a presença de animais de estimação nas famílias tem aumentado significativamente.
Em 2023, a organização implementou um dia de licença para funcionários que perderem um animal de estimação. O pacote inclui suporte psicológico, incluindo situações ligadas a perdas e luto.
“Considerando que a organização possui uma divisão voltada para a saúde animal, houve uma forte conexão entre essa área e a proposta do novo benefício”, afirma Elisa Mendoza, diretora de recursos humanos da unidade brasileira da farmacêutica.
Para acompanhar o impacto do benefício, a empresa conta com monitoramento de indicadores de bem-estar e produtividade.
O aumento da demanda também foi observado nas empresas que oferecem benefícios corporativos, como a Dr. Mep, startup especializada em telemedicina veterinária e conexão entre tutores e médicos veterinários. Desde o ano passado, a Dr. Mep oferece um benefício corporativo voltado para apoiar funcionários que enfrentam o luto pet.
Nathalia Lubini, cofundadora da empresa, explicou que o benefício surgiu ao identificar a necessidade das organizações em apoiar seus colaboradores após a perda de um animal de estimação.
Um exemplo do apoio foi um caso vivido por um profissional que, após perder seu pet em um atropelamento, procurou o atendimento veterinário da plataforma. O tutor buscava entender as circunstâncias da morte do animal.
A implementação do benefício é vista como uma forma de “diferenciar empresas em termos de cuidado com seus colaboradores e cultura organizacional”, ressalta Lubini.
Como lideranças podem acolher funcionários enlutados?
Mesmo que a empresa em que atue não adote políticas formais para colaboradores que enfrentam luto após perda de animal de estimação, a liderança tem autonomia para flexibilizar a rotina de trabalho, orienta a especialista Simone Nascimento.
Uma das alternativas é permitir que o colaborador tire um tempo para si, como um ou dois dias de folga, sem prejudicar sua produtividade no longo prazo.
"Um único dia não é suficiente para processar tudo e retomar o foco. Como não há uma legislação específica, qualquer forma de acolhimento ou flexibilização já é um avanço. Mas o ideal seriam três dias em casa." — Simone Nascimento
A mentora de lideranças Rhayda Rufino sugere que os líderes adotem uma gestão mais acolhedora em momentos de luto, sem se prender rigidamente aos prazos estabelecidos anteriormente. Confira algumas dicas:
1. Reconheça a dor: evite minimizar o impacto da perda. Frases como “era só um cachorro/gato” podem parecer insensíveis.
2. Ofereça espaço para o luto: dê a oportunidade para que o colaborador processe a dor. Se possível, flexibilize a carga horária, facilite um retorno gradual ao ritmo de trabalho.
3. Seja compreensivo com a produtividade: o luto pode afetar o desempenho no trabalho. Comunique a situação para a equipe e esteja aberto a redistribuir tarefas temporariamente, se necessário.
4. Abra espaço para o diálogo: demonstre disponibilidade para ouvir e acolher o colaborador. Uma simples conversa pode fazer diferença no processo.
5. Incentive o cuidado emocional: se a empresa oferece benefícios como apoio psicológico, reforce essa possibilidade. Caso contrário, indique recursos externos que possam ajudar no processo de luto.
Por Jayanne Rodrigues
Fonte: https://www.estadao.com.br/economia/sua-carreira/morte-pet-cachorro-gato-luto-licenca-trabalhadores/